A História por Trás de O Banho de Mucuracáa: uma conversa com Marciane

Laura Soto conversa com Marciane Kokama, escritora e organizadora comunitária, sobre a história por trás do livro O banho de Mucuracaá. O que começa como uma conversa sobre um livro rapidamente se transforma em uma reflexão sobre a linguagem, a memória e a resiliência silenciosa do conhecimento indígena ao longo das gerações.

Autora: Laura Soto
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Quando perguntei a Marciane o que a inspirou a escrever O Banho de Mucuracáa, ela imediatamente começou a falar sobre sua avó. “Hoje ela tem 100 anos”, disse com um sorriso.

Sua avó, Massina, foi uma das pessoas mais importantes de sua vida. Foi com ela que Marciane aprendeu sobre plantas medicinais, banhos tradicionais e muitas das práticas que faziam parte do dia a dia das famílias Kokama às margens do rio Solimões.

Mas essa história começa muito antes.

Os avós de Marciane falavam a língua Kokama. No entanto, como aconteceu com muitos povos indígenas de sua geração, eles viveram em um período em que falar sua própria língua e expressar sua identidade abertamente nem sempre era possível. Enquanto crescia, Marciane frequentemente se perguntava por que nunca havia aprendido sua língua materna.

Ela se lembra de ter feito essa pergunta ao pai muitas vezes.

“Ele costumava me dizer: ‘Minha filha, foi por causa da guerra’.”

Pouco a pouco, ela passou a compreender as difíceis decisões que muitas famílias indígenas tomaram para proteger seus filhos. Línguas foram perdidas, costumes mudaram e muitas famílias deixaram seus territórios para viver nas cidades. O povo Kokama, que viveu por gerações às margens do rio Solimões, não foi exceção.

A própria Marciane cresceu na cidade. Foi lá que se envolveu com movimentos sociais e com a organização comunitária, trabalhando ao lado de outras famílias indígenas para fortalecer a presença do povo Kokama nos contextos urbanos.

Uma das coisas que aprendeu desde cedo foi que viver na cidade não torna ninguém menos indígena.

“Mesmo tendo deixado a aldeia, nunca deixamos de ser indígenas.”

Essa ideia atravessa grande parte do trabalho que ela realiza até hoje.

Quando fala sobre O Banho de Mucuracáa, Marciane não o descreve como um projeto literário ou uma conquista pessoal. Ela fala sobre memórias.

Lembra-se da avó preparando banhos tradicionais com plantas medicinais. Lembra-se de aprender quando usá-los e como prepará-los. Anos depois, quando se tornou mãe, percebeu que estava fazendo exatamente a mesma coisa com seus próprios filhos.

“Eu já estava dando o banho que minha avó tinha me ensinado.”

Por isso, quando recebeu o convite para escrever uma história sobre uma planta, a resposta veio de forma natural.

Não foi preciso procurar inspiração.

A história já estava ali.

“O livro que me inspirou foi o da minha avó.”

De muitas formas, O Banho de Mucuracáa é a continuação de uma conversa entre gerações. Uma avó ensina sua neta. A neta se torna mãe. Mais tarde, se torna autora.

Aquilo que antes era compartilhado apenas dentro da família agora chega a crianças muito além de sua comunidade.

Para Marciane, essa talvez seja a parte mais bonita de toda a jornada. Por meio de uma história simples inspirada em uma planta tradicional, as crianças podem descobrir que existem muitas formas de viver, cuidar e compreender o mundo. Podem conhecer as culturas indígenas não como algo distante ou pertencente ao passado, mas como culturas vivas, que continuam crescendo, se adaptando e transmitindo conhecimentos de uma geração para outra.

E, em algum lugar entre as páginas deste livro, existe também uma homenagem a uma mulher que hoje tem 100 anos e cujos ensinamentos continuam viajando muito além das margens do rio Solimões.

Leia o livro aqui e assista à animação:

Destaques de uma Entrevista com Marciane, Autora de O Banho de Mucuracáa

Leia mais sobre este projeto aqui

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