As abelhas que nos unem: visita a comunidades da Rede Meli no Maranhão

Um projeto de doutorado é construído por muitas mãos e, principalmente, ideias diversas. É com essa missão em mente que iniciei viagem ao Brasil, a qual incluiu visitas a comunidades da Rede Meli no Maranhão. O foco da minha pesquisa de doutorado, realizado na Universidade de Bristol e com diversas parcerias no Brasil, incluindo a Meli e a Embrapa, é o estudo do comportamento das abelhas sociais, especialmente as abelhas sem ferrão.

Autora: Ana Paula Cipriano

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Por meio do estudo do comportamento e da ecologia desses importantes polinizadores, podemos aprender formas de aprimorar nossas técnicas de manejo na Meliponicultura. Atividade essa tão importante tanto para comunidades, devido aos ricos produtos que as abelhas fornecem, quanto para o nosso meio ambiente e biodiversidade.

Particularmente, eu e meus colaboradores estamos interessados em entender a dinâmica de operárias entre as caixas de abelhas sociais, comportamento esse que pode ter consequências importantes para a saúde e a sobrevivência dessas abelhas. Quando uma operária sai de seu ninho em busca de alimento, como pólen e néctar, ela carrega consigo informações sobre a localização do ninho e como retornar corretamente para armazenar esse alimento coletado. Porém, as operárias podem cometer erros nesse retorno para o ninho, o que resulta em um comportamento chamado drifting, quando abelhas de ninhos vizinhos invadem a casa uma das outras. Esse comportamento costuma ser mais comum em meliponários com muitas caixas, todas próximas e muito parecidas, porém ainda temos muitas lacunas para preencher sobre o comportamento de drifting.

Em busca de entender esse comportamento e como os meliponários são organizados no Brasil, realizei visitas de campo a diferentes instituições e comunidades. Um de nossos grandes objetivos durante o doutorado é compreender quais seriam as formas mais eficientes de posicionar as caixas de abelhas nos meliponários para diminuir essa taxa de erro entre as operárias, facilitando o seu retorno bem-sucedido ao ninho. No geral, o drifting pode ter consequências negativas para as abelhas, como a perda de operárias, a transmissão de doenças e brigas entre as operárias. Para compreender esse comportamento, precisamos testar diversas alternativas e entender com os meliponicultores quais são os desafios enfrentados por eles na criação de suas abelhas. A coleta de dados inicial do trabalho foi realizada na Embrapa Meio Ambiente em Jaguariúna, São Paulo, com caixas de abelhas que são mantidas para pesquisa, nos permitindo testar nossos protocolos e metodologias. Nesse trabalho, pudemos estudar as abelhas Mandaguari (Scaptotrigona depilis) e Mandaçaia (Melipona quadrifasciata), comuns nessa região sudeste do Brasil. Após concluir essa etapa, viajei ao Maranhão com o objetivo de visitar duas comunidades: i) Campo de Perizes e conhecer a Ana Maria e ii) a terra indígena Guajajara, para ver as abelhas mantidas pelo Jonas, ambos meliponicultores são integrantes da rede Meli.

A oportunidade de visitar ambos os locais foi muito interessante e me trouxe contatos maravilhosos com essa outra perspectiva do estudo das abelhas: o saber tradicional. O cuidado e carinho que Ana Maria e Jonas têm com suas abelhas é muito especial. Ambos são muito delicados no manejo das abelhas, tratando cada operária de uma forma muito respeitosa. Por exemplo, quando abrimos ninhos nos quais as abelhas estavam mais fortes, é comum que as operárias comecem a voar ao redor de nossas cabeças. No trabalho de pesquisadora, sempre fui muito acostumada com esse comportamento e geralmente tendemos a seguir com nosso trabalho de manejo das colônias, afastando as abelhas que voam ao nosso redor.

Puder perceber que tanto Jonas quanto Ana Maria têm muito cuidado com todas as abelhinhas voando ao seu redor, manejando-as com muita atenção para ter certeza de que não se machucariam. Ao mesmo tempo, ao fechar as colônias ou fazer a extração do mel, Jonas agiu muito cuidadosamente, garantindo que nenhuma operária se encontrava nas bordas da caixa no momento de fechá-la. Confesso que esse comportamento me chamou muito a atenção, pois por mais que eu também seja cuidadosa e respeitosa com as abelhas durante o meu trabalho, senti o carinho e atenção redobrada vindo de Jonas e Ana Maria, algo muito bonito de se presenciar. Nas duas comunidades, a principal abelha mantida é a Uruçu (ou Tiúba), a Melipona fasciculata. Apesar de não ter realizado coleta de dado nas comunidades, já que estava apenas realizando visitas, pude aprender muito sobre o comportamento das abelhas criadas no Maranhão. Observei o fluxo de abelhas na entrada dos ninhos, e aprendi que nesse momento de chuvas e variação nas floradas, há uma menor atividade das operárias nos ninhos.

Por exemplo, ambos os meliponicultores me relataram que o período no qual as abelhas são mais ativas é entre outubro e novembro, período esse muito propício para a retirada do mel. Além disso, é muito interessante ver como as abelhas são uma forma tanto de comercializar um produto sustentável, como de utilização na saúde e bem-estar das comunidades. Sendo, então, uma forma a mais de renda e uma atividade prazerosa para ambos, que me relataram gostar muito de criar as abelhas sem ferrão. Tanto Jonas quanto Ana Maria têm interesse em aprender mais sobre essas polinizadoras nativas e  entender novas formas de comercializar seus produtos. Além disso, Jonas me relatou a tradição familiar em sua comunidade de utilizar o mel das abelhas sem ferrão para curar problemas de saúde, como a tosse, por exemplo.

As conexões que a Rede Meli proporciona são incríveis para possibilitar essa rica troca de saberes e perspectivas. Como pesquisadora, enriquece-me muito a troca com meliponicultores e, ao mesmo tempo, é inspirador vivenciar o cuidado e proteção dos mesmo com as nossas abelhas sem ferrão brasileiras. Para os próximos passos, que possamos caminhar juntos na propagação de uma meliponicultura cada dia mais saudável e responsável com nossas abelhas, entendendo as necessidades e os comportamentos únicos de cada espécie.

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