E se as simulações da ONU invertessem o roteiro?
Todos conhecemos a clássica simulação da ONU: os participantes assumem o papel de diplomatas, negociam em nome de estados-nação e debatem opções de políticas à distância. Mas o que acontece quando formuladores de políticas, pesquisadores e líderes globais são convidados a vivenciar as realidades dos líderes indígenas e das comunidades locais?
Na semana passada, na Meli, realizamos um experimento que foi profundamente revelador.
Autora: Laura Soto
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Depois da COP30, em vez de simular estados e negociações abstratas, escolhemos recentrar a conversa naqueles que vivem diariamente as consequências das decisões climáticas: membros da nossa rede, composta em grande parte por líderes indígenas e de comunidades tradicionais.
Dos resultados da COP às realidades vividas
A COP30 terminou, destacando a urgência de continuar cocriando soluções climáticas com os verdadeiros guardiões das florestas e territórios. Dentro da Meli, surgiu uma questão central: como podemos ir além de acordos técnicos e ajudar a comunidade internacional a compreender de fato realidades que muitas vezes parecem distantes, especialmente para atores da academia e do Norte Global que influenciam diretamente as políticas públicas?
Para fundamentar essa reflexão, realizamos entrevistas com líderes da nossa rede e duas sessões internas comunitárias: uma antes da COP30 e outra de reflexão pós-COP. Também conversamos com membros que participaram da COP30 representando suas nações indígenas. Essas conversas moldaram tanto o conteúdo do nosso evento quanto o design de um jogo-simulação pós-COP.

O que as comunidades realmente querem saber sobre a COP
Um tema emergiu desde o início: a necessidade de entender melhor o que instituições como a ONU realmente fazem — e o que as decisões da COP significam localmente.
Para muitas comunidades vivendo longe da cidade-sede da COP no Brasil, esses eventos parecem distantes e abstratos. Elas sabem que representantes do governo federal participam em nome de seus países, mas reconhecem que esses representantes raramente abordam questões que seus governos não conseguem ou não querem tratar internamente. Como resultado, muitas lutas locais nunca chegam às mesas de negociação internacionais.
Embora os esforços sejam reconhecidos, a ausência de impactos concretos no terreno continua gerando frustração. Outra preocupação recorrente é a lacuna entre acordos de alto nível e realidades vividas. Mesmo com maior representação indígena na COP30, a visibilidade nem sempre se traduz em influência real nos processos de decisão.
Discussões sobre financiamento climático também foram destacadas. O proposto Tropical Forest Forever Facility (TFFF) levantou preocupações significativas. Algumas comunidades souberam do fundo meses antes, mas muitas discordaram da forma como os recursos deveriam chegar até elas.
As comunidades desafiaram a narrativa de que organizações indígenas carecem de capacidade administrativa. Se o financiamento climático pretende alcançar os protetores das florestas, deve investir em governança, tecnologia e sistemas administrativos para que as comunidades possam gerenciar os fundos diretamente. Hoje, menos de 1% do financiamento climático global chega a comunidades indígenas e locais sem intermediários.
Mesmo assim, quem participou descreveu como foi poderoso estar lado a lado com outras nações indígenas, trocar conhecimentos e sentir-se visível em um espaço global. Mesmo para quem não pôde ir, testemunhar esses momentos aumentou a consciência sobre lutas compartilhadas e força coletiva.
O desafio agora é transformar conscientização em ação, transformando conexões em cooperação concreta e de longo prazo.
Construindo a simulação: conectando realidades
Para traduzir esses insights em prática, desenhamos um jogo-simulação totalmente baseado em experiências reais. Os papéis foram construídos a partir de entrevistas e sessões comunitárias com líderes da nossa rede.
Cinco papéis emergiram, refletindo realidades diversas da Amazônia brasileira e peruana: Kichwa, Quilombola, Kokama, Caboclo e Aikewara. Cada papel carregava o peso de liderança real, restrições reais e esperanças reais.
Na quarta-feira, 10 de dezembro, participantes de instituições internacionais, universidades, centros de pesquisa, organizações da sociedade civil e iniciativas independentes participaram desta simulação.
Uma pergunta orientadora moldou a experiência:

O que acontece quando a governança climática se torna vivida na pele?
Quando os participantes habitaram o rio, os direitos sobre a terra, o sistema de saúde, o medo ou a esperança de alguém, a tomada de decisão mudou. Não se tratava mais de “opções de política”, mas de proteção, dignidade, memória e sobrevivência.
Empatia como ferramenta política
Como refletiu Bart Elmore, da Ohio State University, a simulação permitiu que ele sentisse a urgência e a responsabilidade incorporadas por Marisol, uma líder Kichwa recriada para o jogo. Sua motivação para criar soluções duradouras para sua comunidade levanta uma questão mais profunda: como essa perspectiva pode ser trazida para salas de aula, instituições e programas de liderança futuros para cultivar a empatia de forma intencional?

Essa experiência reafirmou nossa convicção: as comunidades precisam ter suas realidades representadas nos espaços de decisão internacional. Precisamos de simulações diplomáticas e sistemas de governança que treinem líderes a sentir as realidades ambientais e sociais por trás das políticas climáticas.
O desafio daqui para frente é claro: garantir que a governança internacional se conecte às realidades locais, construindo parcerias e apoiando as comunidades de formas significativas, diretas e de longo prazo.
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