Oficina de Meliponicultura no Alto Solimões 

Evento presencial realizado na região do Alto Solimões, sudoeste do Amazonas, reuniu participantes durante cinco dias intensos no município de Santo Antônio do Içá. O encontro foi marcado por trocas de saberes, aprendizado prático e pelo compromisso coletivo com o manejo sustentável das abelhas sem ferrão.

Autora: Ana Carolina Cavalcanti

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Abelhas, floresta e saberes locais

A Oficina de Meliponicultura do Alto Solimões aconteceu entre os dias 7 e 11 de julho de 2025, no município de Santo Antônio do Içá, reunindo cerca de 30 participantes de diferentes origens e trajetórias: indígenas das etnias Kokama, Ticuna e Omágua-Kambeba, além de ribeirinhos, caboclos, quilombolas e agricultores familiares. Gente que carrega, no dia a dia, uma relação direta com a floresta, os rios e os ciclos da natureza.

O encontro foi fruto de uma construção coletiva e de parcerias que já vinham sendo tecidas no território. Estiveram à frente do processo as lideranças locais Rômulo de Souza Elias, Orlando de Jesus e Antônio Pedro, parte da nossa Rede e do Programa Polinizadores. Somando forças ao meliponicultor e facilitador William Bercê, o Projeto Olho D’Água, a Prefeitura de Santo Antônio do Içá e, claro, a Meli.

Para Rômulo, a oficina representa também um desdobramento do caminho iniciado um ano antes. Bolsista da primeira edição do Programa Polinizadores, foi ali que teve contato com formações em meliponicultura e conheceu William.

Orlando, por sua vez, é um dos criadores de abelhas nativas mais experientes da região, com mais de sessenta caixas e uma trajetória marcada pelo compartilhamento de conhecimento com outras pessoas da comunidade.

Para ele, a oficina teve um papel fundamental na ampliação da consciência coletiva:

“A oficina foi muito importante, porque muitos parentes não sabiam o papel fundamental das abelhas nativas na natureza, a polinização.”

– Orlando de Jesus

No Alto Solimões, falar de abelhas sem ferrão é falar de floresta, regeneração e território. A oficina partiu exatamente desse ponto: reconhecer o que já existe e fortalecer aquilo que pode seguir crescendo.

Cinco dias de prática e aprendizado

Apesar das dificuldades de acesso à região, o empenho dessas lideranças e o interesse crescente das comunidades deixaram claro que o evento precisava acontecer ali, de forma presencial. O objetivo não era apenas transmitir conteúdo, mas fortalecer práticas locais e ampliar redes de apoio que já existiam no território.

As atividades combinaram teoria e prática em diferentes espaços: salas de aula, meliponários, áreas de floresta e locais de trabalho dos próprios participantes. Entre os principais aprendizados estavam:

Construção de caixas, ninhos e melgueiras; produção de armadilhas com atrativos naturais para captura de colônias; divisão e multiplicação de colônias por módulos e discos de cria; prevenção e combate a pragas como formigas e forídeos; manejo do mel e preparo do extrato de própolis.

O curso também abriu espaço para conversas sobre a regulamentação da meliponicultura e a comercialização do mel, oferecendo informações importantes para quem deseja transformar a atividade em fonte de renda. Ao final da oficina, o interesse foi tão grande que levou à criação de um grupo de WhatsApp, que segue ativo como espaço de troca, apoio técnico e continuidade do aprendizado.

Impacto

A relevância da oficina ultrapassou os dias de formação. A equipe da Rede Amazônica acompanhou as atividades, entrevistou participantes e registrou o cotidiano da oficina, resultando em uma reportagem assista aqui.

Além das técnicas, a oficina fortaleceu uma compreensão coletiva sobre o papel das abelhas no território. Antônio, participante da oficina, resume esse sentimento ao falar da importância de compartilhar o que aprendeu:

“Meu prazer é ajudar as outras pessoas. Onde eu chego e tem uma casa de abelha, eu falo pra pessoa colocar em uma casinha. Dá um bem-estar pra elas.”

– Antônio Pedro

A cacica Joana, Kokama da aldeia Raízes da Ayahuasca, compartilha como a oficina despertou um novo olhar sobre a prática:

“Antes não reparávamos muito nas abelhas, agora entendemos que elas estão na mesma luta que a gente, protegendo a floresta.”

– Cacica Joana

Essa percepção se soma ao entendimento de que a meliponicultura vai além da produção de mel. Como destaca Rômulo Elias:

“Todos que se envolveram de forma direta ou indireta perceberam que criar abelhas ajuda na regeneração e também na polinização das nossas florestas aqui do território, além de construir uma economia sustentável.”

– Rômulo Elias

Hoje, os efeitos da oficina já podem ser vistos tanto no contexto urbano de Santo Antônio do Içá quanto em comunidades indígenas da zona rural, como Vila Betânia. A prática, passa a se espalhar pelo território, conectando floresta, trabalho e futuro.

A oficina se encerrou oficialmente com a entrega dos certificados e um momento de confraternização organizado pela comunidade. Mas, no território, o aprendizado segue vivo: nas conversas, nas trocas, nos meliponários e nas ideias que agora circulam entre a comunidade.

A força esteve no encontro, no protagonismo das lideranças locais, na disposição de aprender coletivamente e na certeza de que cuidar das abelhas sem ferrão é também cuidar da floresta, da saúde e das relações que sustentam a vida no Alto Solimões. 

Para o facilitador William Bercê, o impacto da oficina vai muito além dos dias de formação. Ele resume a experiência com a imagem de algo que foi colocado em movimento e que agora segue seu próprio caminho:

“Me lembrarei eternamente com carinho dessa oficina, com a certeza da força da semente plantada e do impacto gerado por todas as vivências práticas nos participantes.”

– William Bercê

Assim como na polinização, em que as abelhas levam vida de um lugar a outro, a oficina deixou sementes de cuidado, autonomia e regeneração que continuam germinando no Alto Solimões.

Você pode ler o relatório técnico completo aqui.

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