Polinizando a regeneração: uma jornada de meliponicultura em diferentes territórios

Em outubro de 2025, iniciamos uma jornada de meliponicultura em diferentes territórios da nossa rede. Essas atividades foram possíveis pelo apoio do programa bwirkt!, da Fundação SEZ Baden-Württemberg e pelo apoio que a Tamalpais Trust oferece à nossa organização. Ao longo das oficinas realizadas na aldeia Tukapehy (T.I. Sororó), na aldeia Barreirinha (T.I. Arariboia) e na comunidade ribeirinha Campo de Perizes, o percurso revelou diferentes formas de relação com as abelhas, com o território e com o próprio processo de aprender.

Autora: Ana Carolina Cavalcanti
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Aldeia Tukapehy: fortalecer abelhas nativas em contexto de desmatamento


A jornada começou na aldeia Tukapehy, na Terra Indígena Sororó, território do povo Aikewara, no sul do Pará, região inserida no arco do desmatamento.

Nesse contexto, a relação com as abelhas nativas convive com pressões constantes. O avanço de práticas insustentáveis no entorno do território, incluindo o uso de agrotóxicos por fazendas vizinhas, tem contribuído para a redução dessas espécies, uma mudança já percebida pela comunidade.

“Antigamente eu acompanhava muito meu vô, tirava bastante mel aqui perto da aldeia, hoje é mais difícil, acredito que por conta dos agrotóxicos. Fazendeiro fala que abelha é praga, mas pra gente não. Pra gente é benefício.”

— Ikatú Suruí


Foi nesse cenário que o encontro aconteceu.

Ao longo de três dias, a oficina se organizou a partir de diferentes momentos. No primeiro, a escuta orientou o processo: o time da Meli acompanhou relatos sobre a presença das abelhas na região, seus usos e as transformações observadas ao longo do tempo. Nesse percurso, surgiram nomes de diversas espécies, evidenciando que o conhecimento já estava ali.

Nos dias seguintes, as atividades avançaram para a prática. Foram construídas e implementadas caixas de abelhas, formando um meliponário na aldeia. Foram compartilhados conteúdos sobre biologia, manejo das abelhas sem ferrão e aspectos ecológicos relacionados, como a importância da polinização.

O processo se construiu como um diálogo entre conhecimentos. Ao longo das atividades, ficou evidente que o papel da Meli ali era de fortalecer e ouvir.  Cada história, espécie, cada uso: um conhecimento presente no cotidiano e compartilhado entre gerações.

Crianças, jovens, adultos e anciãos participam desse processo.

Os anciãos, em especial, ocupam um lugar central. São eles que guardam e transmitem saberes que mantêm viva uma forma de relação com a natureza construída ao longo do tempo.

Além disso, a oficina também responde a uma preocupação concreta.

“Uma informação preocupante, que veio da parte deles, é de que com o passar do tempo cada vez menos eles têm visto abelhas […] Uma questão alarmante, que reforça a importância da oficina, que é justamente para fortalecer.”

— William Bercê, facilitador da oficina.


Em uma região onde as abelhas sempre estiveram presentes, mas hoje tem desaparecido, a oficina surge como um instrumento para romper esse ciclo. As técnicas de captura, manejo e multiplicação de colmeias são estratégias de fortalecimento da meliponicultura e da presença dessas espécies no território. 

Aldeia Barreirinha: meliponicultura, cultura e autonomia no território


A jornada seguiu para a aldeia Barreirinha, na Terra Indígena Arariboia, no município de Arame (MA).

Ali, a meliponicultura já está integrada ao território. O manejo das abelhas nativas se articula ao consumo local e à geração de renda, compondo práticas que fortalecem a autonomia da comunidade. 

Essa relação, no entanto, não se limita ao campo produtivo: as abelhas também ocupam um lugar central na vida cultural do território. Sua importância é tamanha que se expressa em práticas culturais como a Festa do Mel, uma celebração tradicional que não aconteceria sem as diferentes espécies de abelhas presentes na região.

Nesse contexto, a oficina se insere como um espaço de aprofundamento e troca entre meliponicultores experientes.

Ao longo das atividades, foram compartilhadas práticas relacionadas ao manejo das colmeias, à organização do meliponário e aos cuidados com as abelhas sem ferrão, sempre em diálogo com os saberes já presentes na comunidade.

Entre os momentos práticos, esteve a transferência de abelhas para caixas que passam a compor o meliponário local. Esse processo exige atenção às características de cada espécie e reforça a continuidade de uma prática já desenvolvida na aldeia.

“É importante cuidar das abelhas porque elas também cuidam da gente, por isso a importancia dessa oficina”

— Jó Guajajara

Assim, cuidar das abelhas, aqui, é também cuidar do território e da cultura — dimensões que se mantêm inseparáveis na vida do povo Guajaja.

Campo de Perizes: meliponicultura no mangue e fortalecimento das abelhas nativas


A jornada se encerrou na comunidade ribeirinha Campo de Perizes.

Depois de passar por territórios indígenas de floresta, o percurso chega a um contexto distinto, marcado pela presença dos manguezais. A paisagem muda, mas a relação com as abelhas se mantém.

Ao longo da oficina, a transferência e a multiplicação das abelhas sem ferrão, como tiúba e uruçu, estiveram no centro das atividades, articuladas a práticas de manejo, cuidados com as colmeias e trocas sobre a relação entre as abelhas e o ambiente.

Essa prática responde a uma mudança percebida pela comunidade: a presença crescente da Apis mellifera, conhecida como abelha “americana”, que tem deslocado as espécies nativas. Nesse contexto, multiplicar as abelhas sem ferrão se coloca como uma forma de fortalecimento, da meliponicultura e ,por consequência,da presença dessas espécies no território.

As colmeias observadas, populosas e produtivas, indicam a vitalidade do ecossistema e a diversidade de floradas dos manguezais, refletidas também nos méis e própolis produzidos na região. 

Para Ana Maria, moradora da comunidade e participante da oficina, o processo se traduz em aprendizado e continuidade da prática.

“Foram dias de muito aprendizado, consegui aumentar a colmeia, aprender sobre a importância e como cuidar melhor das abelhas.”

— Ana Maria

Mini documentário registra a jornada Polinizando a Regeneração


Como desdobramento dessa jornada, no dia 13 de março lançamos o mini documentário Polinizando a Regeneração, construído a partir dessas oficinas realizadas em diferentes territórios.

O vídeo reúne imagens e depoimentos de participantes, registrando a experiência vivida ao longo dos encontros. As falas trazem diferentes perspectivas sobre a meliponicultura, a relação com as abelhas e os sentidos atribuídos a essas práticas em cada contexto.

O documentário está disponível no YouTube. É um registro sensível, que convida a acompanhar, a partir das vozes dos próprios territórios e também do nosso time, os caminhos percorridos ao longo dessa jornada e a refletir sobre a importância da meliponicultura.

O nome da série de oficinas e do mini documentário, Polinizando a Regeneração, reflete o que atravessa esse processo. Ao fortalecer a meliponicultura, a iniciativa também fortalece as condições para a polinização — sustentada por quem vive e cuida dos territórios. São essas lideranças, em diferentes contextos, que mantêm vivas práticas, conhecimentos e relações que tornam a regeneração possível.

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