Introdução à criação de abelhas nativas: Conhecendo para preservar   

Abraçando o poder do conhecimento, a comunidade quilombola de Bracinho do Icatu, no Pará, une a tradição com práticas modernas para preservar nossas abelhas nativas e ecossistemas.

Autoras: Taina e Ana Paula
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 “Conhecendo para preservar”, retoma o significado de olhar para um conhecimento já existente dentro da comunidade, mas que por falta de mais informações sobre foi se diluindo aos poucos, como por exemplo o conhecimento tradicional sobre as abelhas nativas. Mesmo compreendendo a importância dessas polinizadoras para o meio ambiente, as abelhas nativas ainda são impactadas diretamente por meio de práticas agrícolas não sustentáveis e manuseio inadequado na extração do mel.   

Por isso a importância de conhecer as suas funcionalidades e as técnicas de manuseio para poder preservar, não só as abelhas, mas toda a biodiversidade. Neste sentido, a oficina Meliponicultura teve como foco principal desenvolver junto às comunidades tradicionais (povos indígenas, quilombolas, ribeirinhos e campesinos) práticas amigáveis de criação de abelhas. A oficina foi pensada para informar sobre a prática da meliponicultura e sensibilizar o público sobre a conservação, reconhecendo o papel geral dos insetos polinizadores, principalmente as abelhas. É importante apresentar o impacto positivo desses agentes na preservação da fauna e da flora, informando sobre a criação racional para geração de renda nas comunidades de agricultores, assim como fonte de insumos para uso medicinal e culinário. 

É sabido que as comunidades tradicionais colaboram para a manutenção da sua biodiversidade local, auxiliando no equilíbrio ecológico dos espaços que habitam. As comunidades possuem formas próprias de organização social, utilizando territórios e recursos naturais como condição para a sua economia, geralmente baseada e fundada em práticas transmitidas pela tradição cultural, utilizadas como meio de subsistência.  Nesse contexto, tais comunidades se beneficiam muito de apresentações com o foco de disseminar a meliponicultura e suas potencialidades dentro dos territórios tradicionais. Assim, a atividade descrita neste relato foi realizada na Comunidade Remanescente de Quilombo São Tomé de Bracinho do Icatu, que possui essa relação direta com a natureza de maneira sustentável, e uma forma própria de manter a vida comunitária. 

O Quilombo fica localizado no estado do Pará, na PA 151, pertencente ao Município de Baião, onde vivem cerca de 75 famílias. Sua força econômica sempre esteve baseada na agricultura familiar e no extrativismo vegetal e animal, sendo o cultivo da mandioca uma das principais fonte de renda, seguido de outros produtos como: milho, arroz, feijão, açaí, cacau, cupuaçu, pimenta do reino e a criação de animais. No extrativismo destacam-se a castanha do Pará, piquiá, uxi, a caça e a pesca. Nesse contexto, a oficina de Meliponicultura “Conhecendo para preservar”, em parceria com a Rede Meli, foi realizada no dia 27/05/2023, por iniciativa da discente Tainá Viana do curso de Agronomia pela Universidade Federal Rural da Amazônia – UFRA. O público alvo desta oficina foi o grupo da terceira idade da comunidade, que foi motivado principalmente pelas senhoras Francisca Oliveira Silva e Maria Raimunda, que se reúnem mensalmente para compartilharem vivências, celebrações religiosas, rodas de conversa e demais aprendizados.  

No geral, a oficina trouxe informações introdutórias sobre algumas espécies de abelhas nativas, as formas de organização e características básicas das colmeias. Estiveram presentes 15 pessoas na atividade, principalmente do grupo da terceira idade, mas também alguns adultos e adolescentes. Um dos objetivos mais importantes desta oficina foi agrupar as informações apresentadas com os conhecimentos já existentes sobre as abelhas, reconhecendo quais espécies existem ou já existiram na área, buscando entender como era realizado o manejo para extração do mel e qual a concepção dos participantes em relação aos impactos ambientais causados pela diminuição das espécies da região. 

Ao realizar a apresentação de slides sobre as abelhas sem ferrão e o papel da polinização, os participantes estavam atentos às informações e bastante interessados sobre a Meliponicultura. Nos relatos da maioria do grupo, a prática de criação de abelhas nativas de modo sustentável ainda não era conhecida. Os participantes relataram que antigamente, quando as colônias eram encontradas nas matas, a abordagem era outra.

“Quando uma colmeia era encontrada em troncos na roça, era feito uma fumaça para expulsar elas, no caminho do meu roçado eu já coletei mel duas vezes, a colmeia estava em uma tora ou tronco de acapu com uma espessura média, cortei na lateral do tronco, fiz uma fumaça com palhas secas para elas não me atacarem e consegui retirar seis litros de mel. Tampei novamente a colmeia, e da outra vez, a colmeia já tinha se estabilizado mais para frente, e eu tive que cortar mais um pouco o tronco, e aí não pude consertar o tronco novamente e elas migraram para outro local do tronco, no total eu coletei dez litros naquela época”.

Senhor Nonato, morador.

Assim, com este relato, os demais presentes também compartilharam suas experiências, sobretudo medicinaiscom o mel da abelha. A prática mais comum consiste em utilizar o mel para composição de xaropes e azeites para a cura da garganta, principalmente em crianças pequenas. O grupo relatou que quando as crianças estavam com as amígdalas muito inchadas, por exemplo, uma pessoa experiente da comunidade utilizava um pedaço de algodão envolvido no dedo e embebido no mel para aliviar a garganta das crianças. Já nos relatos dos mais novos, percebe-se que os mesmos têm conhecimento sobre as abelhas nativas, e durante a atividade, relataram a ausência de colméias nas plantações, comentando sobre os impactos que a falta delas pode ocasionar na produção dos frutos. 

Durante a oficina, também foi construída uma “colmeia isca” com o objetivo ensinar a comunidade a atrair as abelhas sem ferrão, a observarem quais espécies estão mais presentes no quilombo e também o fluxo dessas abelhas nas áreas observadas. As atividades realizadas durante a oficina despertaram a atenção e a curiosidade do grupo sobre a Meliponicultura e a importância dos polinizadores na comunidade e no meio ambiente de modo geral.

Em conclusão, a oficina demonstrou que as pessoas da comunidade possuem um conhecimento das abelhas em geral e seu papel na natureza. Os participantes são recheados de experiências e saberes sobre esses pequenos insetos e os benefícios de seus produtos. No entanto, a preservação e a criação das mesmas não são praticadas devido à falta de conhecimento e por conta de experiências negativas com as abelhas, como ataques. Nesse sentido, a atividade sobre a meliponicultura foi uma novidade muito interessante para eles. A oficina cumpriu um papel muito importante de instigar a curiosidade dentro da comunidade, assim como a discussão de dúvidas sobre as abelhas sem ferrão e sobre sua criação, o que pode ser um passo inicial para a introdução da Meliponicultura no quilombo.

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