Muito além do amarelo e preto: conheça as abelhas amazônicas – Parte I

Importantes socioambiental e culturalmente, as abelhas prestam importantes serviços ao meio onde habitam. Mas você sabia que elas também são bastante diversas? Vem conhecer mais sobre as abelhas da Amazônia!

Autor: Guilherme Moreira
Read in English.

As abelhas se destacam pelo papel ecológico fundamental na manutenção da biodiversidade, o qual desempenham durante sua interação com diversas espécies de plantas (SÁ; PRATO, 2007).

A grande maioria dessas espécies são solitárias, ou seja, não formam enxames, enquanto apenas cerca de 15% são espécies de abelhas sociais, que vivem em colônias. Dentro das espécies sociais, cerca de 400 delas fazem parte de um grupo denominado Meliponíneos (que homenageamos com o nome da Meli!) e não possuem ferrão funcional – conhecidas como abelhas sem ferrão.

Os meliponíneos estão distribuídos nas regiões tropicais e subtropicais da Terra. As Américas têm posição de destaque na diversidade dessas espécies, com aproximadamente 350 tipos descritos, 250 deles só no Brasil (Villas-Bôas, 2018). Dentro do grupo dos Meliponíneos encontramos diferentes gêneros, como Melipona e Trigona. 

As meliponas são abelhas grandes, frequentemente chamadas de “uruçú” (do Tupi antigo “ira”, abelha, + “açu”, grande). Já as abelhas do grupo Trigona são pequenas e valentes. Há registros de quase 200 espécies de abelhas sem ferrão na Amazônia brasileiras e no meio de toda essa biodiversidade, ainda há muito a ser estudado: a biologia, o comportamento e a reprodução de algumas ainda são pouco conhecidos – e sabemos que outras espécies ainda nem foram catalogadas!

Vamos começar a falar de quatro abelhas amazônicas pelo grupo melipona, que têm seu manejo mais difundido. Além do importante papel ambiental, elas e seus produtos têm alcance econômico, nutricional, terapêutico e cultural nas comunidades rurais e até mesmo nos centros urbanos.

.

Melipona fasciculata (Smith, 1854)

Sem título.jpg

Conhecida pelos nomes de Tiuba, Tiuba-do-Maranhão ou Uruçú-Cinzenta, ela é, sem dúvidas, uma das abelhas mais conhecidas entre os meliponicultores e ocorre em boa parte da região amazônica e adjacências: Maranhão, Piauí, Pará, Tocantins e Mato Grosso. Em alguns casos a entrada de sua colmeia forma uma espécie de tubo curto, com saliências ornamentando as bordas. São abelhas grandes, medindo cerca de 12mm de comprimento.

É considerada pela sabedoria popular, como uma abelha seletiva, tanto em relação às flores que visita quanto na escolha de locais de nidificação; o que a torna uma abelha sensível e vulnerável à degradação de seu habitat.

Ela presta serviço à reprodução e manutenção da diversidade genética da flora nativa em florestas e pode auxiliar na recuperação de áreas degradadas. É uma excelente produtora de mel, havendo registro de produções de até 10 litros/colônia/ano na região da Baixada Maranhense, onde seu manejo é mais disseminado.

.

Melipona flavolineata (Friese, 1900).

858dd2e598f30bfffbb67b195e80d61b.jpg

Chamada de Uruçú-Amarela, essa abelha tem uma beleza vistosa; é predominantemente dourada e grande (9-10mm). Ocorre nos estados do Pará, Tocantins e Maranhão. É uma das espécies mais importantes na meliponicultura familiar paraense, destacando-se por sua produção de mel, o qual é muito apreciado. A entrada de sua colméia é formada por um proeminente “cachimbo” de batume (geoprópolis), ornado com pontas e orifícios. 

Sua colônia costuma ser numerosa, e, quando o enxame está forte, costumam ser bem agressivas. Embora essas abelhas não tenham ferrão, elas possuem mandíbulas que incomodam bastante predadores ou quem as maneja.

É importante mencionar que existem diversas melíponas de cor amarela, motivo pelo qual se atribui o nome “Uruçú-Amarela” à várias espécies de abelhas, tais como: Melipona rufiventris, Melipona puncticolis, Melipona fulva, Melipona mondury, Melipona captiosa, Melipona cramptoni, Melipona dubia, Melipona paraensis, Melipona brachychaeta, etc. Não é fácil diferenciá-las, mas podemos considerar também o local de ocorrência, a arquitetura da entrada da colméia, a morfologia, os hábitos e, claro, a genética.  

Essa espécie é excelente produtora de mel, podendo produzir uma média de 3-6 litros/colônia/ano.

.

Melipona seminigra merrillae (Friese, 1903)

dasda.jpg

Conhecida como “Uruçú-Boca-de-Renda”, em decorrência do formato da entrada de sua colméia, essa abelha é uma das queridinhas dos paraenses. Ocorre com mais frequência no Pará e Amazonas, embora já tenha sido encontrada em outros estados amazônicos. Abelhas de porte médio e robustas, com comprimento total em torno de 11 mm.

A sabedoria popular considera que essa espécie apresenta hábito alimentar generalista, coletando diversos tipos polínicos, elas tendem a concentrar suas coletas em espécies vegetais com floração maciça no ambiente.

Elas apresentam crescimento precoce, são populosas (em torno de 2.000 indivíduos por colônia), e possuem boa produção de mel com cerca de 2-4 litros/colônia/ano, embora haja relatos de produção de até 20 litros de mel por ano, a produção está quase o dobro daquela obtida por colmeias de Apis mellifera scutellata na mesma região (Kerr, 1967).

.

Melipona seminigra pernigra

Falando de Melipona Seminigra, também não podemos esquecer da subespécie Pernigra (vide foto capa). Conhecida como Uruçu-Boca-de-Renda Preta ou Uruçu Preta, ela também apresenta a entrada característica de sua colmeia.

Mas em meio a diversos pontos em comum, as parentas se diferenciam na cor, nos hábitos e locais de ocorrência. A Melipona Seminigra Pernigra é encontrada em áreas de transição da região Amazônica, como Maranhão, Tocantins e parte do Pará.

Importante comentar também sobre a possibilidade de hibridação, ao serem colocadas juntas,  da merrillae e mernigra; elas se intercruzam, tendo sido observados indivíduos totalmente negros e indivíduos com o abdome totalmente amareloferrugíneo no mesmo ninho (Camargo,1994).

.

Foto: Melipona seminigra merrillae (esquerda), Melipona seminigra pernigra (direita)

As abelhas desempenham uma função indispensável no ecossistema. Portanto, seja em mata primária, zona rural ou mesmo em área urbana, a meliponicultura merece ser estudada e desenvolvida pela sociedade em geral. Vamos fortalecer a prática da meliponicultura no Brasil, especialmente na Amazônia!

A sua doação faz toda a diferença!
Vamos manter o contato!
Pode nos encontrar também no LinkedinFacebookTwitter ou Instagram 
www.meli-bees.org

One Reply to “Muito além do amarelo e preto: conheça as abelhas amazônicas – Parte I”

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *