Amazonia

Questão Climática na Amazônia

Autor: Dorília Cunha

Auf deusch

A região Amazônica abriga a maior floresta úmida contígua do planeta, o maior rio do mundo, margeado pela maior superfície alagável do planeta e contribui com uma descarga hídrica igual a 18% de toda a água doce despejada nos oceanos, abriga ainda aproximadamente 15% de toda a biodiversidade da Terra. A Amazônia brasileira é o lar de mais de vinte e cinco milhões de pessoas. Mesmo que variações hidrológicas na Amazônia já tenham afetado as comunidades locais e os ecossistemas da floresta tropical nos últimos milênios (Meggers, 1994; Cordeiro et al., 2014; Marengo & Espinoza, 2016). A intensa intervenção humana na floresta que por meio dos impactos do desmatamento regional ou do efeito das queimadas, tendem cada vez mais a alongar a estação seca e a atrasar o início da estação chuvosa na Amazônia. A resposta da floresta frente às crescentes mudanças ambientais que o planeta está enfrentando se tornou o objeto de inúmeras pesquisas e despertou o interesse da sociedade mundial.

A Bacia Amazônica é uma componente chave do sistema climático global. Ainda assim, decifrar a sua variabilidade climática permanece um grande desafio em decorrência da grande dificuldade em encontrar dados históricos, os espeleotemas, que tem sido um dos principais meios de registro climático, são escassos nessa área e sedimentos coletados ao largo da foz do rio Amazonas podem não revelar variabilidade hidrológica interna devido à numerosa assinatura andina no suprimento de sedimentos (Govin et al.,2014).

Atualmente, o ciclo de precipitação sazonal sobre a Amazônia é dominado principalmente por variações na intensidade da Monção de Verão da América do Sul (MVAS) e por mudanças na Zona de Convergência Intertropical (ZCIT) (Marengo, 2004; Garreaud et al.,2009). O MVAS envolve dois componentes principais: um associado à Zona de Convergência Intertropical (ZCIT) no Atlântico equatorial e convecção sobre a Amazônia; outro subtropical associado à Zona de Convergência do Atlântico Sul (ZCAS) e relacionado ao sudeste da América do Sul (Figura).

Os ciclos de sazonalidade climática no norte da América do Sul, são marcados pelos movimentos da ZCIT, que estão relacionados com a dinâmica dos ventos alísios de nordeste e impactam os oceanos e a massa continental. A migração da ZCIT ocorre devido às variações na temperatura da superfície do oceano Atlântico, que provocam contrastes com a temperatura do continente sul-americano e propiciam o ciclo sazonal de precipitação característico da Amazônia (Noguès-Peagle et al., 2002; Hastenrath & Lamb, 1977). Mudanças nas temperaturas da superfície do mar dos oceanos atlântico e pacífico afetam severamente o transporte da umidade para a Amazônia e controlam parcialmente a descarga do rio amazônico e seus afluentes (Marengo & Espinoza, 2016).

As anomalias interanuais de precipitação na América do Sul são provocadas pelos ciclos do El Niño-Oscilação Sul (ENOS). Estes ciclos são caracterizados pelo aquecimento anômalo da superfície do Oceano Pacífico tropical e promovem períodos de seca na região Amazônica e no Nordeste do Brasil e períodos chuvosos na costa oeste da América do Sul. Por outro lado, as anomalias La Niña são caracterizadas pelo esfriamento anormal das águas superficiais no oceano Pacífico tropical e geram aumento na precipitação da bacia amazônica e da Região Sul do Brasil (Cheng et al., 2013; Vuille et al., 2003; Hoffmann et al., 2003; Garreaud et al., 2009; Bookhagen & Strecker, 2010). As flutuações irregulares entre suas fases quentes (El Niño) e frias (La Niña) apresentam periodicidade que varia de dois a sete anos. Anomalias de chuvas e temperatura associadas à ocorrência dos eventos El Niño e La Niña são a principal fonte de variabilidade interanual em grande parte da América do Sul (Gerreaud et al., 2009).

As consequências do desequilibro climático na Amazônia podem ser devastadores, a oferta irregular de água, por exemplo, afeta drasticamente a produtividade de ecossistemas tropicais. Infelizmente, as previsões feitas através de análises recentes apontam para uma maior probabilidade de frequências de secas na Amazônia pelos próximos 100 anos devido principalmente às mudanças climáticas, desmatamentos e queimadas (Cox et al., 2008; Malhi et al., 2009). Além disso, o aquecimento global também pode acarretar na intensificação de eventos de El Niño (Hansen, Huntingfoud; Cox, 2006). Além de períodos de secas intensificadas que possuem potencial de reduzir o estoque de Biomassa acima do solo (Rolim et al., 2005; Phillips et al., 2009; Lewis et al., 2011), assim como a longo prazo, alterar a composição de espécies (Engelbrecht et al., 2007; Nepstand et al., 2007; Fonty et al., 2009; Phillips et al., 2010).

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Referências

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Cheng, H., Sinha, A., Cruz, F.W., Wang, X., Edwards, R.L., D’Horta, F.M., Ribas, C.C., Vuille, M., Stott, L.D., Auler, A.S., 2013. Climate change patterns in Amazonia and biodiversity. Nat. Commun. 4, 1411. doi:10.1038/ncomms2415

Cordeiro, R. C., Mulitza, S., Patzold, J., Wefer, G., & Marengo, J. A. 2009. Possible impact of the Atlantic Multidecadal Oscillation on the South American Summer monsoon. Geophysical Research Letters, 36 (21), 1-5. 10.1029/2009GL039914.

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